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Kaysar: a verdadeira história do refugiado do ‘BBB’


Kaysar Dadour estava se recuperando da quinta cirurgia na perna direita em um hospital de Odessa, no sul da Ucrânia, quando ouviu uma voz, sugerindo que ele procurasse os primos no Brasil. “Não foi simplesmente uma intuição. Parecia alguém falando muito alto mesmo”, contou ele aos amigos. Mudar-se para o Brasil era o fim de uma temporada de cinco anos de sofrimento naquele país. Seis meses antes, o ora participante do Big Brother Brasil 18 voltava do trabalho quando deu de cara com uma gangue nacionalista e foi espancado por carregar um crucifixo no pescoço. Acabou com a perna direita quebrada em quatro partes e o braço esquerdo, em três. Sem contar aos pais sobre a agressão, ligou para casa, em Alepo, na Síria, e pediu o contato de Abdo Abage, cônsul honorário da Síria do Brasil e primo da sua mãe, a dona de casa Diane. Abdo enviou uma carta para a embaixada do Brasil na Ucrânia pedindo ajuda para liberá-lo. Um mês depois, em junho de 2014, Kaysar, finalmente, desembarcava no aeroporto de Curitiba. Foi recebido por outro primo, Nassib Abage. Os dois não se viam fazia anos, mas lembravam de se encontrar em jantares de família. “Os pais dele eram muito alegres e, sempre que ia visitá-los, faziam questão de promover uma festa. Passávamos a noite dançando ao som de bandolins”, lembra o primo.

Os pais – que não veem o filho pessoalmente há mais de oito anos, estão acompanhando o BBB pela internet. ‘A mãe dele acha que o Kaysar está rebolando muito’, diz o primo

Sem saber direito dos costumes do parente distante, os irmãos Abage decidiram hospedá-lo num apart-hotel. Como o aluguel era caro, cerca de 15 000 reais por ano, dez meses depois decidiram que ele moraria na casa de Nassib. Solteiro e sem filhos, o caçula dos irmãos Abage mora numa confortável casa de dois andares no centro de Curitiba. Reformou o último piso e construiu um apartamento de dois quartos com 100 metros quadrados para Kaysar, de 28 anos. Como sabe da paixão do primo por esportes, Nassib fez uma vaquinha entre os sete irmãos e montou uma academia para o hóspede em um dos quartos. Dono de uma rede de lojas de matérias elétricos com a família, Nassib também garantiu uma mesada de 1.800 reais por mês.

Fluente em árabe, inglês, francês, grego, russo e ucraniano, Kaysar aprendeu rápido o português. Em cinco meses, também já falava bem o idioma. Para facilitar a sua adaptação no Brasil, adotou o nome de Cesar. Matriculou-se no curso de hotelaria do Centro Europeu na esperança de conseguir um emprego na área. “Ele era esforçado e vivia de bom humor. O que me chamou atenção nele é que era muito correto. Sabemos que o curso era caro e oferecemos uma bolsa de 50%. De vez em quando, conversávamos para saber se estava tudo bem e ele dizia que estava conseguindo pagar a mensalidade. Ele poderia pedir para aumentarmos o desconto, mas nunca fez isso”, diz José Ost, presidente-executivo da escola.

Foi no curso que Kaysar conheceu a empresária Stephanie Keller. Dona da Tão Tão Distante, empresa de animação que oferece atores trajados como os personagens das histórias infantis para diversos festas e outros tipos de eventos, chamava o colega de turma para dar uma ajuda e ganhar um extra. “Ele é exatamente como na TV: sempre alegre. Já chegava de manhã, brincando com todo mundo e rebolando sempre que colocávamos música nas aulas. Como tem bom físico, logo percebi que poderia interpretar o Homem-Aranha”, conta ela. Além do super-herói adolescente, Kaysar se vestiu de Olaf, o boneco de neve do filme Frozen, como o Príncipe da Branca de Neve e de Aladdin. Por trabalho, ganhava 110 reais. “As crianças o adoravam porque ele gostava de brincar de o tudo. Uma vez ficou chateadíssimo porque não o deixaram descer em uma tirolesa, pela idade e peso.”


Quando terminou o curso, em dezembro de 2016, fez inscrição para trabalhar como garçom no hotel Intercity de Curitiba. Num bate-papo com uma colega de trabalho, ficou sabendo das inscrições do reality show da Globo. Quando soube que o prêmio era de 1,5 milhão de reais, ficou com os olhos brilhando. “Falei que era difícil ser escolhido porque muita gente queria participar. Mas ele ficou meio obcecado com a ideia. Espalhou cartazes dizendo que queria entrar para o programa. Era uma espécie de mantra para ele”, lembra Nassib.

Kaysar agarrou-se na possibilidade de entrar para o BBB porque sabia que dificilmente teria condições de juntar dinheiro para bancar a saída dos pais da Síria. Além do emprego de garçom e dos bicos nas festas infantis, também adestrava aves silvestres para ter renda extra. “Ele contava que tirou dois papagaios da depressão. Os bichos viviam tristes e ele ensinou truques novos e os devolveu felizes aos donos”, conta outra amiga do curso, Aline Heeren. Apaixonado por bichos, era comum encontrá-lo nos finais de semana no parque Birigui com milho para dar aos patos. Em casa, tem um papagaio chamado Habibi, e uma calopsita, a Pirata. Testemunha de uma temporada de fossa, Pirata aprendeu a cantar uma música em russo que ele costumava ouvir para matar as saudades da namorada que deixou na Rússia.


Em Alepo, cidade da Síria, Kaysar levava uma vida de classe média alta. O pai, Georges Dadour, era representante no país de uma famosa marca de cosméticos alemã. A mãe, Diane Meramo Dadour, não trabalhava. A irmã, Celine, hoje mora em Beirute, no Líbano, onde estuda Ciências Políticas. Segundo a família brasileira, ela fugiu no porta-malas de um táxi para não ser estuprada. Kaysar precisou deixar o país aos 20 anos para não se alistar no exército e escapar à guerra. Fugiu pelo Líbano, mas seu destino era a Ucrânia, onde receberia a ajuda de um amigo. Quando chegou a Odessa, porém, não conseguiu contato com ele. Alguns anos depois, descobriu que o tal amigo havia morrido de câncer. Sem ter onde se hospedar, passou dias dormindo, literalmente, embaixo de uma ponte. Até conseguir emprego como gari e, com o dinheiro do salário, alugar um quarto em uma pensão. Para pagar o aluguel, também ajudava na limpeza do lugar.

Uma noite, voltando do trabalho, deu de cara com uma gangue nacionalista. Ao perceberam que Kaysar era sírio e cristão, começaram a agredi-lo. Foi salvo por vizinhos que o reconheceram e o levaram para o hospital. “Ele sofreu muito nessa vida. Tanto que não sabe chorar. Quando está triste, ele grita, mas grita muito mesmo”, conta Nassib. O sírio também é do tipo que fala pouco sobre a vida pessoal. Namorada séria no Brasil só teve uma, uma estudante de Direito chamada Tatiane que se mudou para Portugal para fazer mestrado. Se não gosta muito de conversar, em compensação e bem ao estilo árabe, adora escrever poesia. Não larga um caderno coberto de textos de sua autoria, em árabe e russo.



Kaysar parece que sabe que precisa chamar a atenção do público. A cada semana, surge com um visual diferente. Já cortou o cabelo várias vezes, raspou a sobrancelha e a cabeça, num visual que lembrava o de Ronaldinho na Copa de 2002. Na semana passada, pegou mal o jeito como dançou com a cantora Anitta. Alguns internautas acusaram o sírio de assédio. A própria cantora precisou colocar panos quentes na discussão e disse que não havia acontecido nada demais.

Os pais – que não veem o filho pessoalmente há mais de oito anos, estão acompanhando o BBB pela internet. “A mãe dele acha que o Kaysar está rebolando muito”, diz Nassib. “Eu entendo essa queixa dela porque lá isso não é comum. Ele é jovem, só está fazendo o que as pessoas da idade dele fazem.”

De Veja.com

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